O OUTRO LADO DA CIDADE


Águas Claras é uma cidade conhecida por seus prédios altos, pela cidade de esquinas e nomes de ruas, coisa essa que não existe em nenhum lugar do Distrito Federal. A região administrativa criada oficialmente há apenas 12 anos, virou o centro das atenções brasilienses. Com mais de 130 mil habitantes, 590 prédios, engarrafamentos, grandes polos comerciais, inúmeros colégios e faculdades. Essa matemática é a que todos conhecem e a única que nos leva a um só lugar: ao caos. Mas, curiosamente, existem importantes rotinas vividas por cada morador ou visitante que se aventuram por esse clã, mas que não são computadas, pesquisadas e se quer faladas. Pois bem, apresento-lhes a nossa cidade!

Em dezembro de 1992 a Lei Distrital n.º 385 autorizou a implantação do bairro de Águas Claras na região administrativa de Taguatinga e aprovou o respectivo plano de ocupação, mas tornou uma cidade satélite oficialmente em 2003, descabelando todos os defensores dos fundamentos urbanísticos do planalto central, com seus prédios enormes e com esse mundinho a parte que aqui viria a existir.

No início dos anos 2000, a cidade não tinha forma e nem jeito de um local habitável. As principais avenidas eram recheadas de quiosques totalmente improvisados, que funcionavam como restaurantes e bares, dividindo a paisagem com muita poeira e operários. O trânsito não era bem definido e achar um endereço aqui era uma atividade arriscada.

A cidade nasceu, cresceu e floresceu com direito a elogios elitizados e virou referência em qualidade de vida. Hoje, abriga um maravilhoso parque ecológico, com trilhas para caminhada, quadras, polícia florestal e comporta a pequena Lagoa dos Patos. O índice quase nulo de criminalidade é outro fator que tanto faz brilhar os olhos por essa cidade. As opções comerciais são as mais variadas, shoppings com suas grandes marcas e pequenas delicadezas como cafés, livraria aconchegante, locadoras de filmes, sem esquecer os deliciosos pontos gastronômicos.

Águas Claras possui o maior número de cachorrinhos de pequeno porte e carrinho de bebês por metro quadrado, quem mora aqui sabe explicar melhor esses dados. Existem lindas praças na cidade, e todas elas recebem nomes de pássaros da fauna brasileira como “Rouxinol”, “Faisão”, “Beija-Flor” entre outros. As avenidas levam nomes de importantes árvores e plantas como “jequitibá”, “araucárias”, “pitangueiras”, o que nos faz pensar que aqui é uma charmosa cidade do interior. Desde uma caminhadinha no parque até as conversas nas padarias e filas de supermercado, observamos pessoas que vieram do plano piloto ou de outro estado aderindo ao “jeito águas claras de ser”.

Temos filhos adotados de uma cidade, aqui ninguém nasceu, mas todos escolheram seu lugar, investiram e acreditaram numa região diferenciada. Há os que pensam simplesmente no seu super condomínio, com piscina aquecida e sala de cinema, ficam com seus carros fechados com ar condicionado e dão bom dia aos portões da garagem. Existem os que reclamam ainda do rótulo da cidade-canteiro-de-obras e especulações imobiliárias, sentindo-se dentro de uma enorme seção de classificados ao ar livre, com anúncios de edifícios, apartamentos à venda e serviços, o que na verdade é absolutamente normal vindo de uma cidade ainda em crescimento.

Existe um comportamento diferente na nossa cidade. Temos pessoas que conversam nas calçadas, que dão “bom dia” no elevador, crianças com diversas opções de lazer e tranquilidade. Os grupos estão cada vez mais fortes, seja da academia, da corrida no parque das “Mães amigas de Águas Claras” no facebook (que reúnem mais de 11.000 mulheres), os twiteiros, os skatistas, os aposentados… Pessoas que de uma forma ou de outra querem fazer uma cidade especial. E caso alguém ainda utilize o rótulo de que na nossa cidade só existe trânsito ruim, por favor, responda que eles não sabem de nada.

CRÔNICAS DA URBE
Por
Fernanda Sá  |  Foto Eduardo Vergara

Anterior HAMILTON IGUALA TRI DE SENNA
Próximo TRADIÇÃO MINEIRA NA CIDADE