RELATOS DE VÍTIMAS DE GUERRA


As estrelas cadentes do meu céu são feitas de bombas do inimigo, espetáculo reúne relatos de jovens vítimas de guerra

Ainda existem utopias transformadoras? É possível interferir na marcha real da história? Estas são algumas das indagações propostas em As estrelas cadentes do meu céu são feitas de bombas do inimigo, espetáculo inspirado em 12 dramáticos relatos de guerra descritos por crianças e jovens durante conflitos que marcaram a história da humanidade. A montagem, encenada pela companhia paulistana Provisório-Definitivo, estreia na Caixa Cultural Brasília em novembro e tem direção de Nelson Baskerville. A iluminação não convencional, os bonecos cenográficos confeccionados especialmente para a peça e as projeções de cenas de filmes e reportagens de guerra reforçam a linguagem épica do espetáculo, que permanece na cidade por dois finais de semana, de 6 a 15 de novembro. Às sextas e aos sábados, as sessões começam às 20h, e aos domingos às 19h. Os ingressos custam R$ 20, a inteira, R$10 a meia-entrada e a classificação indicativa é de 14 anos. Após a sessão da sexta-feira, 13 de novembro, o dramaturgo Pedro Guilherme conversa com a plateia sobre o processo criativo da Cia. Provisório-Definitivo.

Alguns dos relatos que compõem As estrelas cadentes do meu céu são feitas de bombas do inimigo foram extraídos dos livros Diários de Guerra – Vozes Roubadas, de Zlata Filipovic e Melanie Challenger e Diário de Anne Frank e formam uma narrativa fragmentada e não cronológica de histórias ocorridas desde Primeira Guerra Mundial até a mais recente invasão do Iraque, passando pela Guerra do Vietnã, pela Intifada Palestina, pela Segunda Guerra Mundial e pela guerra do tráfico em São Paulo. Para Nelson Baskerville, a narrativa isenta dos jovens é fundamental para a composição do espetáculo. “O olhar puro, sem interferência sobre a guerra, não mascara ideologicamente a verdade do que acontece”. Ao espectador cabe, então, refletir e buscar respostas para as perguntas desses jovens, vítimas dos conflitos de guerra. Para a Cia. Provisório-Definitivo, “a busca do entendimento sem maniqueísmos ou manipulações é um importante instrumento da arte e da educação”.

O ESPETÁCULO

As estrelas cadentes do meu céu são feitas de bombas do inimigo nasceu de um processo colaborativo entre os atores-criadores da Cia. Provisório-Definitivo (Carlos Baldim, Paula Arruda, Pedro Guilherme e Thaís Medeiros) e o diretor Nelson Baskerville. Denominado pelo grupo uma “peça-documentário”, o espetáculo faz recortes teatrais dos relatos das crianças e jovens, com direito a licenças poéticas, nos quais o rigor histórico cede lugar à liberdade de criação. “Esta foi a melhor forma que encontramos para contar as histórias. Mais do que uma cópia fiel dos fatos históricos, nos interessou a leitura artística que poderíamos fazer sobre esses fatos”, argumenta Pedro Guilherme.

A cenografia estabelece uma atmosfera onírica que busca o distanciamento da crueza da realidade do que está sendo dito. Nelson Baskerville explica que “o cenário é lúdico para expor uma camada de ilusão sobre a verdade composta por caixas que vão se alternando em formas e funções, em um ambiente tomado pela neve e fumaça. A cenografia exibe um quadro pouco nítido, garantindo uma encenação não apelativa”. Para os atores, o panorama das guerras – refletido pelos olhos de crianças – é um importante ponto de reflexão sobre o mundo atual. “O espectador, colocado dentro desta ‘caixa de guerra’, é levado pensar sobre os conflitos. Quem causa a guerra somos nós, pela posse, pela propriedade. Queremos algo que é do outro e vamos tomar à força”, afirma o diretor, que cita Tennessee Williams: “Sou o contrário de um mágico. Ele faz a mentira parecer verdade e eu faço a verdade parecer mentira”. Segundo Baskerville, esta frase permeia toda a encenação. “É importante esta nevoa de fumaça para nos aproximar das histórias, porque tudo é verdadeiro”, completa o diretor.

Além dos textos inspirados nos diários, o espetáculo apresenta também outras histórias, algumas escritas pelos próprios atores e pelo diretor. Há ainda a narrativa de Washington, um personagem da guerra do tráfico na periferia paulistana, cuja trajetória foi retratada no documentário Jardim Ângela, de Evaldo Mocarzel. “Era importante trazer esse tema da guerra também para os trópicos; é importante questionarmos sobre qual é a guerra de cada um”, argumenta Nelson Baskerville.

Ao dar identidade a anônimos, em meio a grandes conflitos do século XX e XXI, a peça exibe um profundo panorama documental dessas questões. “Muito além de eleger heróis ou vilões, parece-nos necessário indagar sobre o nosso papel nos processos evolutivos da sociedade”, refletem os membros da companhia. Segundo eles, as histórias apresentadas não falam simplesmente de crianças, mas de seres humanos que, independente da idade, origem ou crença, protagonizam histórias tão próximas e ao mesmo tempo distantes, tão coerentes e absurdas, tão belas e apavorantes. É nessa trilha de antagonismos que transita a encenação de As estrelas cadentes do meu céu são feitas de bombas do inimigo.

O projeto nasceu de uma antiga paixão de Paula Arruda pela vida da Anne Frank. No final de 2007, pelas mãos de Pedro Guilherme, Paula conheceu outras histórias de crianças e jovens que também escreveram diários em tempos de guerra. A pesquisa teve início em 2009 e, no ano seguinte, a ideia foi compartilhada com os outros integrantes da Cia. Provisório-Definitivo, Carlos Baldim e Thaís Medeiros. Decidiram contar essas histórias e, desde então, o grupo vem trabalhando não só na montagem como na viabilização do espetáculo. “Esses anos também foram importantes para o amadurecimento do projeto”, explica Paula.

As estrelas cadentes do meu céu são feitas de bombas do inimigo estreou no SESC Consolação em 2013 e desde então realizou temporadas de sucesso no Teatro da USP, no Viga Espaço Cênico e no Teatro ECUM, em São Paulo, além de se apresentar em várias unidades do SESC interior e em importantes festivais de teatro pelo Brasil. O espetáculo foi contemplado pelo 4º Concurso de Montagem Teatral do Centro da Cultura Judaica e ProAC ICMS (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo).

O DIRETOR

Vencedor, em 2012, dos prêmios Shell e da Cooperativa Paulista de Teatro como melhor diretor; dos prêmios APCA e Governador do Estado (Júri Popular) de melhor espetáculo para Luis Antonio-Gabriela, Nelson Baskerville é ator, diretor e autor teatral além de artista plástico. Formado pela EAD (Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo) em 1983, Baskerville trabalhou como ator e assistente de direção de Fauzi Arap durante os anos de 1980, quando integrou a memorável montagem de Uma lição longe demais, de Zeno Wilde. Em maio de 2011, recebeu o convite para dirigir As estrelas cadentes do meu céu são feitas de bombas do inimigo. Um ano depois, começaram os primeiros encontros para a criação da dramaturgia. Enquanto isso, em 2012, estreou 17XNelson – Se não é eterno não é amor e 7 Gatinhos, de Nelson Rodrigues, no Teatro de Arena, em São Paulo, além de Brincando com Fogo (no Sesc Pompéia) e Os Credores (no Sesc Ipiranga), ambos de Strindberg, e Córtex (no CCBB). Também dirigiu o espetáculo Auto da Independência, no parque da Independência.

A COMPANHIA

Criada em 2001 por formandos em Artes Cênicas na ECA-USP, a Cia. Provisório-Definitivo comemora 12 anos de história. A cada trabalho, o grupo conta com um diretor convidado, o que possibilita aprendizado e ampliação do “olhar teatral”. Em 2011, a companhia foi contemplada pela 18º Edição da Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo para o projeto Cia. Provisório-Definitivo 10 anos.

As estrelas cadentes do meu céu são feitas de bombas do inimigo é o décimo espetáculo do grupo, que montou também Gangue (de Pedro Guilherme e direção de Mauro Baptista Vedia, 2012); Pelos ares (de Pedro Guilherme e direção de Lavínia Pannunzio, 2011-10); Família Dragão (de Pedro Guilherme e direção de Soledad Yunge; 2011-2009); Tape (de Stephen Belber e direção de Mário Bortolotto, 2009-08); De onde o sol se esconde – Histórias do Japão (de Paula Arruda e Pedro Guilherme, 2011-07); Todo bicho tudo pode sendo o bicho que se é (de Pedro Guilherme e direção de Hugo Possolo e Henrique Stroeter, 2011-06); O colecionador (de John Fowles e direção de Marcos Loureiro, 2006-05); Bulgóia, Repenique & Tropeço (de Hugo Possolo e direção de Cris Lozano, 2004-03); Verdades, canalhas (de Mário Viana e direção de Hugo Possolo, 2002-01).

Companhia premiada, o espetáculo Gangue venceu o Prêmio Femsa em categorias (Melhor Espetáculo Jovem 2012, Melhor Ator Coadjuvante – Marco Barretho e Melhor Atriz Coadjuvante – Paula Arruda), Pelos Ares venceu o Prêmio de Melhor Peça Infantil no Cultura Inglesa Festival (2010); e Família Dragão foi indicada ao Prêmio FEMSA 2009 de Melhor Ator Coadjuvante – Carlos Morelli. Já Todo Bicho Tudo Pode Sendo o Bicho Que Se É ganhou o Prêmio Funarte Petrobrás para Montagem de Textos Inéditos e indicação ao Prêmio FEMSA 2007 de Melhor Autor – Pedro Guilherme.

O primeiro trabalho do grupo, Verdades, canalhas, recebeu vários prêmios em festivais: 11º Mostra Nascente de Talentos – TUSP; 16º Festival de São José dos Campos (prêmios para sonoplastia, iluminação, ator revelação – Pedro Guilherme, atriz revelação – Paula Arruda e espetáculo; indicações para cenário e direção); 8º Festival de Teatro do Rio UVA (prêmios para ator – Pedro Guilherme, atriz – Paula Arruda, diretor e espetáculo; indicações para iluminação, figurino e ator – Daniel Dottori); 4º Mostra de Teatro de Jales (prêmios para cenário, sonoplastia e espetáculo; indicações para iluminação, figurino, direção, atriz – Paula Arruda, ator – Daniel Dottori e Pedro Guilherme); VII Festival Nacional Curta Teatro / SESI Sorocaba (prêmios para iluminação, ator – Pedro Guilherme, 2º melhor espetáculo e indicação para sonoplastia).

Paula Arruda integrou o CPT de Antunes Filho, durante seis anos. Vencedora do Prêmio FEMSA 2012 como Melhor Atriz Coadjuvante por Gangue e indicada ao prêmio FEMSA 2011 como Melhor Atriz por Biliri e o Pote Vazio. Indicada ao Prêmio Shell 2008 de Melhor Atriz por O Céu 5 Minutos Ates da Tempestade. Por Verdades, Canalhas, prêmios de Atriz Revelação no 16º Festivale de S. J. dos Campos e de Melhor Atriz no 8º Festival de Teatro do Rio UVA.

Pedro Guilherme foi indicado três vezes ao Prêmio FEMSA: Melhor Autor por Gangue e Todo Bicho Tudo Pode Sendo o Bicho Que Se É e Melhor Autor de Texto Adaptado com Histórias por Telefone (Prêmio APCA Melhor Infantil 2011). Ganhou o Prêmio como Ator Coadjuvante no 7º Festival de Teatro de Americana por Carro de Paulista; com Verdades, Canalhas, prêmios de Ator Revelação no 16º Festivale de S. J. dos Campos, Melhor Ator no 8º Festival de Teatro do Rio UVA e Melhor Ator no 7º Festival Curta Teatro.

Serviço

As estrelas cadentes do meu céu são feitas de bombas do inimigo

Local: Caixa Cultural Brasília | Teatro da CAIXA (SBS, Quadra 04, lotes 3/4)
Dias: 6, 7, 8, 13 (sessão seguida de debate), 14 e 15 de novembro.
Hora: Sextas e sábados às 20h, e domingos às 19h.
Classificação Indicativa: 14 anos
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia)
Meia-entrada: estudantes, professores, funcionários e correntistas que pagarem com cartão de débito CAIXA, pessoas acima de 60 anos e doadores de 1 kg de alimentos não perecível ou agasalhos.
Capacidade: 406 lugares (8 para cadeirantes)
Bilheteria: De terça a sexta e domingo, das 13h às 21h, e sábado, das 9h às 21h. Contato: (61) 3206-6456
Acesso para pessoas com deficiência
Patrocínio: Caixa e Governo Federal
Informações: (61) 3206-6208

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