SOB BANDEIRAS


Se erguendo da terra vermelha, uma longa haste de bambu carregava uma bandeira, também vermelha. O estandarte, antes de tremular orgulhoso, havia sido camiseta, talvez de vermelho mais intenso. Enquanto esteve ali, demarcava a moradia modesta, desafetada, de um habitante das ruas, dono das sobras descartadas para sempre. Um pirata invisível – talvez microscópico, minúsculo, pequenino.

A casa do pirata incorpóreo era barco ao contrário, invertido, embarcação acanhada, em forma de V, virada pelo vento num rasgo de mar de terra laranja, mato e postes entre o final da EPTG e o começo do Pistão Norte. Era barco que não navegava, onde esteve é onde estava antes.

O pirata não visto singrava por mares também imateriais, que corriam por dentro e por fora de sua nau, num universo imaginário sem acessos – a não ser para o pirata, que lá caía num redemoinho que não o machucava ou sufocava, mas o protegia.

Um dia, tudo sumiu. O mar secou, a terra emergiu. A bandeira se foi. A haste de bambu foi reduzida. O barco continuou o mesmo amontoado de restos, de improvisos. Uma sensação de ruína se abateu sobre as gambiarras de fórmicas e papelões. Faz uns dias que a mudança aconteceu: no lugar da flâmula encardida, um símbolo da pátria. A bandeira do país, quase diminuta, feita de papel rígido, foi içada ao topo do local.

O pirata, entidade dos mares, foi substituído pelo bandeirante, ser da terra. O mar virou território firme, o barco tornou-se barraca. Dela sai um personagem que caminha, incorpóreo como o que dormia no barco. O pirata agora habita os céus e chegou, finalmente, a seu navio, que corta as nuvens, sob o sol ou sob as estrelas, não mais sob bandeiras.

CRÔNICAS DA URBE
Por
 Rafiza Varão  |  Foto John Download

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